Ontem mesmo assisti a um directo do Congresso Americano em que o mesmo congresso interrogava os presidentes dos oito bancos mais importantes dos Estados Unidos, sobre os erros por eles cometidos. Impressionou-me a linguagem ríspida com que...
PORQUE SE RIEM OS NOSSOS POLÍTICOS?
Ontem mesmo assisti a um directo do Congresso Americano em que o mesmo congresso interrogava os presidentes dos oito bancos mais importantes dos Estados Unidos, sobre os erros por eles cometidos. Impressionou-me a linguagem ríspida com que os congressistas conduziam os seus interrogatórios e, por outro lado, a forma tímida, nervosa e vacilante com que aqueles Senhores Presidentes, há bem pouco muito poderosos, respondiam e pediam desculpa pelos seus erros. Foram mesmo obrigados a declarar os seus salários em 2008 e afirmar que abdicaram dos seus bónus.
Hoje mesmo, ao analisar os resultados das bolsas mais importantes, constato que praticamente todas as bolsas europeias desceram, que o Dow Jones atinge valores mínimos e que o Nasdaq segue a mesma tendência. Os níveis de desemprego aumentam vertiginosamente em todo o mundo e mesmo a stimulus package Obama é já posta em causa. A maior parte dos analistas acreditam que a crise ainda não bateu no mundo. E quando falamos dos Estados Unidos, estamos a falar de um país com reservas petrolíferas, com uma indústria forte, com centros de investigação de tecnologia de ponta, um país com enormes recursos.
É curioso verificar que no meio desta avalanche de más notícias, os países do norte da Europa, Noruega, Suécia, Dinamarca e Holanda, não surgem ainda muito contagiados por esta moléstia de características globais. O mesmo não se pode dizer da Alemanha, da França, Reino Unido e, principalmente da nossa vizinha Espanha. Quanto a nós, será melhor nem fazer comentários.
Conclui-se facilmente que não há razões para ninguém se rir e, no entanto, quando me confronto com os debates da nossa (deles) Assembleia da República, vejo os nossos ilustres deputados a rirem, a aplaudirem, a actuarem como se a crise nos passasse ao lado ou algum deles fosse detentor da terapêutica certa para esta crise.
Em Março do ano passado já um apontamento meu (e quem sou eu?) com o título “Vêm aí tempos difíceis” alertava para a bola de neve tóxica que se começava a formar e mesmo no último trimestre de 2007, face às notícias da bolha imobiliária nos Estados Unidos, antevia que a minha velhice ia ser tudo menos tranquila. E, se já não ria muito, agora não tenho mesmo vontade nenhuma de rir. Daí não perceber porque riem os políticos. Poder-se-ia aplicar a velha expressão “Quem ri no fim é quem ri mais”, mas, face a esta calamidade global, nem chineses, nem indianos, nem europeus, nem americanos vão ter qualquer razão para se rirem uns dos outros.
Embora não muito dado a citações, julgo que é oportuno referir duas citações do filósofo francês Charles de Montesquieu:
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Numa época de ignorância, não temos nenhumas dúvidas, mesmo que se cometam os piores males.
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Quanto menos os homens pensam, mais eles falam.
E se riem muito, ainda muito menos pensam. Felizes os ignorantes.
Nídio Duarte